A história dos dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis (DCEI) multiprogramáveis teve início na década de 50. Esses dispositivos tornaram-se implantáveis nos anos 60, surgindo a necessidade de se desenvolver formas de comunicação wireless com esses aparelhos.

Antes do desenvolvimento da comunicação por telemetria na década de 70, imãs eram usados rotineiramente para avaliar o estado da bateria ou alterar a frequência de estimulação. A comunicação eletrônica com cardioversores-desfibriladores implantáveis (CDI), que surgiram em meados de 1980, era limitada. Naquela época, os imãs eram usados basicamente para ligar e desligar as terapias antitaquicardia, acessar o tempo de carga e reformar o capacitor periodicamente, permitindo carga rápida em caso de necessidade de disparos de choque.

Nos aparelhos modernos, os imãs interagem com os DCEI fechando o interruptor de palheta. Este componente consiste em 2 palhetas ferromagnéticas, separadas por uma pequena lacuna, fechados em uma cápsula de vidro cheia de um gás inerte. O interruptor magnético é desenhado para fechar quando é exposto a um campo magnético de aproximadamente 10 Gauss. O fechamento do interruptor magnético desabilita a sensibilidade do sistema, resultando em estimulação temporariamente assíncrona em marcapasso (MP) ou suspendendo terapias do CDI. Este interruptor é então reaberto quando o campo magnético é removido. Certos modelos de CDI podem ser desativados e reativados por aplicação contínua e sustentada de um campo magnético por alguns segundos.1

É improvável que campos magnéticos estáticos no ambiente rotineiro, ou mesmo na maioria dos ambientes industriais, tenham força suficiente para fechar o interruptor magnético. Isto se deve ao fato de que a força do campo magnético se dissipa rapidamente quando a distância da fonte aumenta. Entretanto, DCEI podem ser afetados se o portador estiver próximo a objetos que possam gerar campos magnéticos potentes.

Atualmente, aplicação inadvertida de imã sobre um DCEI não é incomum devido ao aumento do número de objetos que contêm ou são feitos de componentes magnéticos. Mesmo um pequeno imã pode afetar MP ou CDI se o campo magnético for forte o suficiente ou se estão muito próximos ao dispositivo cardíaco.

Em 2009 Lee e cols2, avaliaram 8 diferentes fones de ouvidos portáteis e a potencial interferência magnética em 55 pacientes com CDI e 45 com MP. Campo magnético ? 10 Gauss, com força o suficiente para fechar o interruptor magnético, foi observado em 2 fones posicionados a 2 cm de distância do DCEI e em nenhum dos fones posicionados a 3 cm de distância. Os autores ainda identificaram, neste estudo, estimulação assincrônica em 20% dos MP e suspensão da detecção de taquicardia e da terapia em 38% dos CDI.

Recentemente a Apple© lançou no mercado o iPhone 12. Este modelo de telefone móvel possui uma matriz circular de imãs em torno de uma bobina de carga central para ser compatível com o acessório MagSafe. A tecnologia Magsafe contém um magnetometro e um leitor de comunicação de bobina única. Os imãs ajudam a alinhar adequadamente o iPhone a um carregador wireless e outros acessórios periféricos e aumenta a velocidade de carregamento (acima de 15 Watts).

Joshua Greenberg,3 preocupado com a possibilidade de interação entre o iPhone 12 e DCEI devido a presença da forte matriz magnética no aparelho e na capa de proteção compatível com a tecnologia MagSafe, testou esta interação em um paciente com um CDI da marca Medtronic©. Quando o iPhone 12 foi colocado próximo ao CDI, sobre o face anterior do hemitórax esquerdo, foi observada suspensão imediata das terapias do CDI, que persistiu durante todo o teste. Isto foi reproduzido com diferentes posições do iPhone sobre a loja do gerador de pulsos.
Essa informação traz importante implicação para os portadores de CDI que possuem o iPhone 12: devem evitar sua aproximação com a loja do dispositivo.

A própria Apple©, em sua página eletrônica, publicou a seguinte recomendação: “Dispositivos médicos como marca-passos implantados e desfibriladores podem conter sensores que respondem a imãs e rádios em contato próximo.

Para evitar possíveis interações, mantenha o iPhone e os acessórios MagSafe a uma distância segura do dispositivo (mais de 15 cm/6 pol. de distância ou, durante o carregamento sem fio, mais de 30 cm/12 pol. de distância). Não deixe de pedir orientações específicas ao médico e ao fabricante do dispositivo. Fale com seu médico e com o fabricante do dispositivo médico para obter informações específicas sobre o seu dispositivo médico e para saber se você precisa manter uma distância segura entre o DCEI e o iPhone ou acessórios MagSafe. Os fabricantes costumam fazer recomendações sobre o uso seguro dos dispositivos perto de produtos magnéticos ou sem fio para evitar possíveis interferências. Se você suspeita que o iPhone ou algum acessório MagSafe está provocando interferência no seu dispositivo médico, pare de usá-los.”

As Diretrizes Brasileiras de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis publicada ainda em 2007 recomenda manter telefones móveis a uma distância de 30 cm de MP e CDI; ou seja, o cuidado recomendado em decorrência dos recentes achados relacionados ao iPhone 12 já faz parte das recomendações sugeridas pela SOBRAC há vários anos. É muito importante estarmos sempre atentos aos riscos de interferências eletromagnéticas sobre DCEI para que possamos mitigar os riscos potenciais aos pacientes.

Júlio César de Oliveira
Coordenador de Estimulação Cardíaca Artificial

Ricardo Alkmim Teixeira
Presidente

Referências Bibliográficas:

1. Jongnarangsin K, Thaker J P, Thakur R K. Pacemaker and magnets: An arranged marriage. Heart Rhythm, vol 6, nº 10, October 2009.

2. Lee S, Fu K, Kohno T, Ransford B, Maisel W. Clinically significant magnetic interference of implanted cardiac device by portable headphones. Heart Rhythm 2009;6:1432-1436.

3. Joshua C. Greenberg, et al. Life Saving Therapy Inhibition by Phones Containing Magnets, Heart Rhythm. DOI: doi.org/10.1016/j.hrthm.2020.12.032

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